Revisado por: Marina Santos
No dia 3 de maio é celebrado o Dia mundial da liberdade de imprensa. A data foi proclamada pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) em 1993, e comemora a importância e o direito da mídia, em conjunto com os profissionais de Comunicação, de investigar e divulgar informações livremente, além de relembrar a importância de se combater as tentativas de censura.
O papel do Jornalismo é essencial para que fatos sejam esclarecidos para a população. Uma fonte de informação segura pode, ao mesmo tempo, esclarecer e proteger a sociedade. A comunicação responsável tem o poder de afetar as pessoas no seu dia a dia.
Durante os anos de ditadura militar no Brasil, diversos crimes foram cometidos contra jornalistas e profissionais da mídia. A censura imposta a jornais e veículos de imprensa impossibilitou os meios de publicar a verdade sobre o que estava acontecendo. Jornalistas foram submetidos a tortura e mortos.
Vladimir Herzog, diretor de jornalismo da TV Cultura, se entregou voluntariamente para o Departamento de Operações e Informações de São Paulo (DOI-Codi/SP), órgão de inteligência e repressão política, a fim de prestar depoimento. No local, Herzog foi torturado e assassinado por militares no dia 25 de outubro de 1975. Na época, uma farsa foi montada e a causa da morte foi falsamente atribuída a suicídio. Apenas em março de 2024, o Estado brasileiro pediu desculpas. O reconhecimento oficial de Herzog como anistiado político post mortem e a concessão da pensão vitalícia à viúva Clarice Herzog, ocorreram em março de 2025, quase 50 anos após o assassinato do jornalista.
Em entrevista, a jornalista Lorenna Kuroda, assessora de comunicação da Universidade Católica de Brasília (UCB) e com vasta experiência em diversas áreas do Jornalismo, explica como está o cenário atual da liberdade de imprensa: “Vejo um cenário de tensão constante. A liberdade de imprensa existe, mas é atacada com frequência, seja por tentativas diretas de censura, seja por ataques à credibilidade dos profissionais. Isso gera um ambiente de insegurança e de muita responsabilidade para quem trabalha com Comunicação.”
Segundo dados do ranking mundial de liberdade de imprensa realizado pela organização internacional Repórteres Sem Fronteiras em 2024, o Brasil está na 83ª posição quanto à segurança para a Imprensa, tendo um aumento positivo de nove posições em relação a 2023, quando estava na 92ª. Todavia, a situação ainda é considerada problemática segundo a pesquisa que demonstra a dificuldade e insegurança do jornalismo em cobrir informações sobre corrupção, crime organizado e política.
Brasil no Ranking Mundial da Liberdade de Imprensa (imagem clicável)
Como destaca Lorenna, enfrentar a censura e as pressões políticas é essencial para reafirmar o Jornalismo como pilar da democracia. No entanto, práticas como a omissão de informações e tentativas de censura tornam o combate à desinformação ainda mais urgente: “Já recebi pedidos para esconder fatos, mas acredito que há uma linha ética que nunca deve ser cruzada. Sempre busquei agir com respeito à verdade, trabalhando para construir a melhor narrativa possível, sem omitir fatos de interesse publico", afirma.
Fortalecer a liberdade de imprensa envolve defender o direito à informação, valorizar o jornalismo ético e criar instrumentos legais para punir quem espalha fake news (notícias falsas). A profissional aponta que as redes sociais transformaram o acesso à informação, dando visibilidade para que novas vozes ocupassem espaços antes inacessíveis. Esse mesmo progresso acabou abrindo espaço para a circulação de desinformação e para ofensivas coordenadas contra jornalistas e meios de comunicação.
Além de informar com precisão, os comunicadores enfrentam o desafio de reconquistar a confiança do público diante dos ataques à credibilidade da imprensa. Um exemplo disso, no Brasil, ocorreu em setembro de 2024. Um vídeo manipulado da jornalista Sandra Annenberg foi utilizado em anúncios no Facebook para divulgar um suposto programa do governo chamado “Resgata Brasil”. A comunicadora alertou sobre o uso indevido de sua imagem para aplicar golpes, destacando que sua reputação, construída ao longo de mais de três décadas de telejornalismo, estava sendo explorada de forma fraudulenta.
“Já pensei em desistir, não pela profissão em si, mas pela forma como o mercado trata os comunicadores”, revela a jornalista Lorenna Kuroda.
A precarização do mercado e a falta de condições de trabalho também ameaçam a liberdade profissional. Nesse cenário, o diploma de Jornalismo acabou sendo desvalorizado: qualquer pessoa com presença na mídia muitas vezes se apresenta como Jornalista, sem compromisso com a apuração ou com a ética profissional. É preciso reforçar que o Jornalismo exige preparo, responsabilidade e técnica, e que as redes devem ser tratadas como ferramenta, não como substituto da prática jornalística, pois a sociedade precisa de um Jornalismo que contextualize e dialogue com a realidade.
Em meio a ataques constantes, proteger a imprensa livre é proteger o direito de todos à informação e, mais do que nunca, resistir é uma defesa da própria democracia. Lorenna acredita que a sociedade precisa de um Jornalismo que explique, que aprofunde e que dialogue. Ela afirma que deseja, no futuro da profissão, ver mais coragem para enfrentar os fatos de forma profunda e mais espaço para o Jornalismo que vai além da superficialidade. Com isso, anseia pelo respeito ao trabalho sério, tanto por parte do público quanto das próprias empresas de comunicação, pela valorização dos salários e pelo cumprimento das jornadas previstas para a categoria.
Por fim, Lorenna fala sobre a implementação de leis de segurança e a beleza do trabalho da Comunicação: “O Jornalismo é uma profissão linda e necessária, mas que exige muita resiliência. Precisamos de leis mais rígidas para proteger jornalistas contra violência, assédio judicial e intimidação. A segurança do profissional de Comunicação é essencial para que a liberdade de imprensa, de fato, exista”.
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